Se sentou naquela cadeira de couro especialmente escolhida pra o seu total conforto, pegou o
notebook e o ligou. Enquanto esperava, olhou pela janela. As pessoas passavam tranquilamente pela rua, de vez
enquanto alguns grupos passavam conversando. Os trechos que conseguia ouvir eram algo como "e então eu tenho contas no..." e "eu soube que ela está tendo um caso com o...". Quando ouviu o
tipíco som do
iniciar do
Windows, arrastou os olhos até a
telinha azul onde lhe pediam a senha. Quase que automaticamente, os dedos
deslisaram pelas teclas e bateram no
enter. Rapidamente, abriu aquele programa de edição de textos que usava constantemente. Como o computador não vinha com ele instalado, teve que comprá-lo. Mas, Senhor, eram quase R$ 200,00! Por isso preferiu apenas passar em uma
barraquinha de rua e comprar um CD pirata por R$ 10,00.
Com certa
lerdeza, o programa iniciou-se e ela se viu diante daquela
telinha amavelmente azul e aquele
retangulo branco. Sentiu-se em casa. Respirou fundo e rodou os olhos pela sala procurando inspiração, lembrou-se daquelas pessoas que vira pela janela e pensou que talvez pudesse escrever algo sobre uma menina que era perseguida por um homem misterioso sempre que saia de casa. Quase por mágica, os dedos iam sozinhos nas letras certas para as palavras
exatas, os olhos iam num fluxo frenético de vai-e-vem entre o teclado e tela. Assim, fizeram-se dois, quatro, oito parágrafos. Decidiu que quando chegasse no 10º pararia e daria um
descanso a mente. Tomaria um chá, passaria pela varanda para sentir o sol gostoso das 4h.
Assim que contou dez parágrafos, esticou-se lentamente e colocou o
notebook na mesa. Levantou e sentiu os joelhos doerem levemente, bem, ela está acostumada com isso. Afinal, por ser uma escritora ela passa muitas horas sentada. Na cozinha, abriu a geladeira e durante os 60 segundos que ela ficou aberta, 30 foram apenas encarando-a, sem nada procurar. A mente ficou vazia, e os olhos não viam nada além de uma imagem distante. "Na época em que criaram a
ideia do Nirvana" pensou ao sair do transe "com certeza não tinham
ideia da geladeira e do efeito dela na mente". Pegou a travessa de
mousse, o cortou em uma fatia fina e colocou-o em um prato. Pouco, pois não queria engordar. "Pois, quando o meu
príncipe de história
shoujo, vier me buscar, eu não posso estar gorda. Vou ganhar dinheiro com os livros e ficar tão linda quanto aquelas cantoras coreanas" se olhou no reflexo
difuso do garfo "se bem que eu não tenho aqueles adoráveis olhos puxados. Mas, está tudo bem, já que elas querem se parecer mais com as ocidentais" sorriu. Colocou o prato e o garfo na pia e devolveu o
mousse para a geladeira. Na varanda, o sol lhe acariciava suavemente a pele pálida, mantida assim por filtro solar
fator 100, mesmo nos dias nublados. "Quando o meu
príncipe vier, ele estará me esperando no portão de casa. Me olhará com aquele olhos brilhantes e ligará para o meu celular só para ouvir a minha voz. Então, no meu coração, eu vou saber que nós fomos feitos um para o outro" se apoiou no parapeito e estendeu a mão na
direção da luz. "Está na hora de entrar"
Se sentou novamente naquela cadeira de couro, escolhendo uma posição diferente. Pegou o
notebook e por alguns minutos ficou
encarando aquelas bolhas que
brincavam na tela. Passou a ponta do dedo indicador, fazendo um coração.
"Vou escrever, talvez um dia isso se torne real"
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