É manhã, sei que a esta hora o sol já deve estar no céu. Mas, os seus raios não podem chegar até mim. Mais uma vez, estou deitada nessa cama, embrulhada em lençóis brancos imundos, bagunçado. Nós fizemos aquilo novamente... Não, nós não fizemos. Ele fez comigo, por que eu não queria. Ainda agora, fortes dores invadem meu corpo pequeno. Manchas roxas estão espalhadas sem padrão pelo meu corpo, feita pela força das mãos grandes que tanto me machucam. Mãos grandes e quentes que eu odeio.
Me levanto lentamente, mas a cada movimento, sinto mais dor. As lágrimas, contra minha vontade, surgem em meus olhos e deslizam pela a minha face. Lágrimas de dor, de ódio, lágrimas de medo daquele homem. Vou ao banheiro e me apoio na pia, lavo meu rosto, mas as lágrimas persistem. Quando foi que isso começou? Em verdade, eu prefiro não me lembrar. As lembranças trazem dores ao meu coração e a minha alma, dores maiores do que as que sinto agora. Quantas vezes ele já fez isso comigo? Creio que já tenha perdido a conta. Mas a cada vez que isto acontece, sinto como se fosse me partir em pedaços. A dor aos poucos ameniza-se, mas o ódio continua intacto no meu coração. Passo para o quarto, tentando procurar algo para vestir. O forte cheiro de alcóol e tabaco invade minhas narinas assim que adentro o quarto, uma sensação de nojo me embrulha o estômago ao olhar para cama. Nojo do odor, nojo da cama, e nojo de mim mesma. Mas, acima de tudo, eu tenho nojo daquele homem.
Desço as escadas, toda a casa está contagiada pelo cheiro de alcóol que tanto me enoja. Desde que ele veio para esta casa, garrafas de bebidas alcoólicas se fazem constantes. O cheiro do tabaco também é presente. Charutos cubanos, Sminorff, cigarros das melhores marcas, Conhaque, entre outros estavam espalhados pela casa. Em meu intimo, tenho vontade quebrar todas essas garrafas, estragar charutos e cigarros. Mas, tenho certeza, de que se o fizesse, eu seria ainda mais machucada. Isso apenas me quebra mais.
O silêncio é uma melodia na casa onde geralmente se ouvem gritos de brigas. Minha mãe deve estar na rua. E graças aos céus meu padrasto também não está. Minha mãe o trouxe para esta casa há alguns meses. "Por favor, seja gentil com ele.", foi o que ela me disse. Mas, ela disse também à ele para ser gentil comigo? No começo, os presentes estavam sempre chegando, como se caíssem do céu. Hoje, me pergunto se isso era uma forma de me comprar. No começo também, poucas eram as vezes em que fáziamos isso, logo "raras" se tornou "constantes" que por fim, se tornou "sempre".
Nessa manhã, a chuva caia em gotas grandes, gotas grandes que escorriam pela janela como lágrimas. Lágrima de Céu , é uma forma bonita de se pensar. A porta abriu-se subitamente, um homem encharcado me cortou com o olhar.
- Vai ficar parada me olhando, idiota? Corra e me traga uma toalha! - O homem gritou. Eu corri, meu padastro não gosta de esperar.
Entreguei-lhe a toalha e os meus olhares. Meu coração doía, estava cansado. E um coração tão jovem não deveria se sentir assim. A irritação se fazia presente nos olhares e nas palavras que ele me jogava. "Traga-me algo para beber, rápido" foram suas últimas palavras, corri para a cozinha e ouvi seus passos me seguindo. As mãos pequenas suavam e tremiam enquanto seguravam o copo de conhaque.
Apartir desse momento, o que você tem que saber é : foram dez segundos, caminhei, as mãos tremeram, as pernas bambalearam e eu cai. O conhaque rolou pelo chão branco da cozinha, eu fui novamente cortada por olhares cheio de veneno.
-Será possível que você não sabe fazer nada direito?! - Ele me ergueu do chão, aquelas mãos quentes me machucando. Me solte, não me toque, estou com medo, estou com nojo. O que se faz quando não existe nada nem ninguém que possa te salvar? Você chora.
Eram nove e dez da manhã, eu vi no relógio de ursinho no meu quarto. Horário de óbito, meu coração morreu.
Por que eu não tenho o direito de decidir se quero fazer isso ou não?
Por que ele gosta tanto de me machucar?
Por que isso acontece?
Marcadores: Arame Farpado
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